Arquivo vivo: reflexões e inspirações

Este projeto pretende recriar e reimaginar as dores e os prazeres da minha existência, ao longo desses 27 anos, como uma mulher LGBTQ+ latino-americana. De um lado, eu investigo uma juventude marcada por desafios de saúde mental, violências de gênero e uma constante falta de perspectiva resultante do capitalismo tardio em um país periférico. Mas, ao mesmo tempo, uma juventude marcada pela descoberta profunda do pertencimento – a uma cultura, a um tempo, a uma vida – e pela força que nós mulheres encontramos para resistir, amar, sonhar e contemplar. Trata-se, assim, de uma Ode ao Meu Tempo de Amadurecimento, em diálogo com outras vivências e comunidades, criando uma experiência imersiva e uma crítica social.

Por meio de pinturas, peças de cerâmica e instalações, eu irei percorrer as dores e prazeres da minha trajetória – da infância à maturidade – de modo que os limites entre essas fases se embaralham e se afetam. A ideia de continuidade e unidade das obras será criada através da repetição de elementos com significados pessoais (bolos, pérolas, conchas, sangue, xícaras, tule e adesivos coloridos) que funcionam quase como símbolos e alternam significados. Cada suporte artístico revela esses elementos de uma forma: nas cerâmicas e instalações, eles aparecem como objetos isolados e ampliados, algumas obras sendo interativas e convidando o público a participar da construção dessa pesquisa; nas pinturas, em óleo e aquarela, a figura humana surge como o centro da composição, interagindo com esses símbolos. 

O projeto não tem a intenção de seguir uma linearidade autobiográfica, mas de reimaginar as minhas vivências, criando tensões políticas silenciosas e uma experiência estética. Assim, nesse universo singular, mulheres se escondem dentro de bolos como fazem as formigas (uma fantasia da minha infância) para escapar da dor, ou cobrem o corpo com curativos coloridos para curar feridas emocionais. Elas desfrutam de um prazer transcendente em momentos de solitude, se enraizando e florescendo ao deitarem em um campo florido, ou sendo levadas às nuvens (e comendo o algodão) enquanto leem um livro. Momentos coletivos oscilam entre a liberdade e o luto: mulheres que se reúnem para fazer meninos levitarem, ou choram juntas dentro de xícaras em rituais sob o luar. 

As pinturas terão larga escala e serão realizadas em aquarela sobre papel e óleo sobre tela. As peças de cerâmica serão esmaltadas e coloridas, à exemplo da concha. Já as instalações serão feitas em tecido, tule e outros materiais recicláveis, ainda para serem definidos. 

Futuramente, eu também pretendo incorporar experimentações na dança ao projeto, talvez por meio de performances ou videoperformances.

Esta pesquisa nasceu a partir de contos que escrevi nos últimos anos, como O Mergulho, A Primeira Helena e Atlântida, a Cidade Perdida. Atualmente, eu também estou escrevendo um romance de formação que explora temas como classe, gênero e identidade sexual.

Referências Estéticas

Sketches: estudos feitos em aquarela para pinturas;

Pinturas: seleção das minhas pinturas à óleo e aquarela – e uma peça de cerâmica – que servem como inspiração estética para o projeto;

Fotografia: fotografias tiradas por mim que servem como inspirações para o projeto.