Se me preocupa as palavras não sangrarem mais é porque já nem sei se algum dia: sangrei. E se tento sangrar, se me esforço: contrações dolorosas, coágulos desconexos que não encontram abrigo do lado de fora. Putrefação. Um terror me sentir enlatada assim em mim mesma, sem conseguir escorrer em vermelho contínuo. Mas hoje, então bem hoje, permaneci imóvel durante vários minutos na cama, desfrutando de uma combinação incomum, prazerosa porque é dessas que guarda segredos (como todos os prazeres e que por isso são prazeres): lençóis brancos, a segunda luz da manhã, o meio-silêncio, um fluxo de sangue na coxa: outro de palavras na ponta da língua: deixe-me sangrar, deixe-me sangrar, deixe-me sangrar.