Living Archive: reflections and inspirations

Mapeamento Simbólico

Algumas iconografias já são recorrentes nos meus trabalhos artísticos e é provável que apareçam, com maior ou menor frequência, na investigação Sem Mar; Sem Terra Firme, funcionando como chaves de leitura para os estados de subjetividade que percorro:

Iconografia Infantil: O emprego de elementos do universo lúdico evoca a liberdade da autoexpressão e a preservação do deleite mnemônico. Esses signos confrontam a vivacidade da memória com a melancolia inerente à desilusão do amadurecimento. Na presente investigação, eles surgem como fragmentos flutuantes, ora nítidos, ora desbotados pela distância temporal.

Iconografia Feminina: Composta por objetos historicamente atribuídos ao universo doméstico e decorativo, este eixo investiga a ambiguidade entre o acolhimento da vida íntima e a aspereza das pressões estéticas. Aqui, a feminilidade manifesta-se através de estampas florais e do uso da cor rosa — que transita entre a delicadeza e a saturação — denunciando as camadas de construção da identidade feminina.

Iconografia do Abjeto: Fundamentada na noção de abjeção de Julia Kristeva (Poderes do Horror, 1982), esta vertente explora aquilo que perturba a ordem e as fronteiras do corpo. Em minha produção, ela busca refletir sobre a dor, a violência e a organicidade do corpo feminino, manifestando-se nesta investigação através do sangue e da decomposição (representada aqui pelo descarte urbano).

 

 

 

Pautado pelo caráter experimental, o projeto abdica de uma narrativa linear para assumir uma estrutura sinuosa. Não se pretende construir uma cartografia nítida ou um inventário cronológico dos fatos, mas sim materializar imagens que capturem as tensões internas de uma década de construções e desconstruções. A proposta é uma cartografia em aberto: cabe ao observador percorrer as pistas e rastros pictóricos, traçando um mapa subjetivo através de sua própria interpretação.
Distanciando-se do rigor de produções anteriores, esta série assume uma estética do inacabado e do sugestivo. As telas abrem-se em espaços vazios e são atravessadas por camadas de escritos, onde a pintura não busca o preenchimento total, mas a sugestão de formas. Esse silêncio visual e a presença da palavra escrita reforçam a ideia de um projeto em construção, espelhando a natureza fragmentária da memória e do próprio ‘tornar-se’.
Nesta investigação, a fotografia e a escrita operam em frentes distintas, mas complementares, para a construção da cartografia poética:

A Fotografia como Dispositivo Pictórico: Os registros fotográficos — tanto o arquivo de infância quanto o cotidiano de Belo Horizonte — servem como o ponto de ancoragem para a pintura. A fotografia é selecionada e transposta para o suporte de forma híbrida: ora mantendo a fidelidade ao registro, ora sendo subvertida e modificada conforme os embates internos que a cena deseja representar. Aqui, a imagem fotográfica é o rastro que guia a construção da mancha e do volume.

A Escrita como Testemunho e Grafia: Meus escritos desempenham uma função dupla. Primeiramente, operam como um arquivo de consulta, permitindo o acesso à vivência de uma década habitando este território. Em um segundo momento, a escrita ganha corpo físico na obra, sendo estampada sobre a pintura como grafismo. Mais do que legibilidade, esses textos buscam imprimir na pele das figuras e na superfície dos objetos a densidade da memória e das subjetividades que me constituem.

 

 

Um dos eixos centrais desta pesquisa é a prática dos esboços intuitivos: registros imediatos que prescindem de referências externas para permitir que a imagem emerja diretamente do pensamento. Esses esboços não buscam uma resposta única; pelo contrário, abrem espaço para que novas camadas de sentido surjam. O objetivo é convocar o repertório técnico e anatômico internalizado para que a ideia flua sem as amarras da mimese, transformando o ato de esboçar em um método autoetnográfico de observação de mim mesma. Pela sua potência enquanto registro de processo, alguns desses estudos poderão ser incorporados à montagem final da exposição durante a residência, reforçando o caráter processual e aberto da investigação.

A Escrita como Testemunho e Grafia: Meus escritos desempenham uma função dupla. Primeiramente, operam como um arquivo de consulta, permitindo o acesso à vivência de uma década habitando este território. Em um segundo momento, a escrita ganha corpo físico na obra, sendo estampada sobre a pintura como grafismo. Mais do que legibilidade, esses textos buscam imprimir na pele das figuras e na superfície dos objetos a densidade da memória e das subjetividades que me constituem.

 

 

A Fotografia como Matéria Cartográfica
Pautado pelo caráter experimental, o projeto abdica de uma narrativa linear para assumir uma cartografia fragmentada, onde a fotografia deixa de ser um registro estático para tornar-se a matéria-prima da pintura. O registro fotográfico não busca a reprodução fiel do real, mas serve como o rastro necessário para a construção de uma imagem que se pretende evanescente.
Nesse processo, a fotografia funciona como um ponto de ancoragem que pode ser transposto com fidelidade ou profundamente subvertido, conforme os embates internos que desejo representar. Essa coleta organiza-se em duas frentes principais:
O Arquivo de Infância: Utilizo registros pessoais como um mergulho em direção à origem. Através de fotografias selecionadas, busco resgatar sonhos e memórias que fundamentam minha subjetividade, funcionando como os primeiros marcos desse mapa identitário.
O Registro Urbano: Em contrapartida, utilizo fotografias do cotidiano de Belo Horizonte, com foco em descartes e fragmentos encontrados pela cidade. Esses registros capturam o impacto do novo território sobre o meu corpo, documentando o que resta e o que se transforma no encontro com a paisagem urbana.
A fusão dessas duas frentes permite que a pintura transite entre o tempo da lembrança e o tempo do agora, transformando a fotografia em uma ponte para uma investigação que é, ao mesmo tempo, memória e presença.

 

 

A Escrita Como Testemunho e Grafia
Nesta investigação, a escrita desempenha uma função bivalente, operando tanto como arquivo quanto como elemento plástico. Diferente da fotografia, que ancora a imagem, a palavra surge como o rastro da voz e do tempo, manifestando-se em duas dimensões:
O Arquivo de Vivência: Meus escritos funcionam como um campo de consulta para acessar a experiência acumulada ao longo de uma década habitando este território. São registros que testemunham o processo de adaptação e as transformações subjetivas provocadas pela cidade, servindo de base conceitual para os embates representados nas telas.
A Inscrição Plástica: No plano pictórico, a escrita transborda o papel para tornar-se grafismo. As palavras são estampadas e incorporadas à pintura, cobrindo corpos e superfícies como uma pele adicional. Mais do que a busca pela legibilidade, esse gesto visa imprimir na obra a densidade do pensamento, transformando o texto em uma trama visual que evidencia como a narrativa íntima e o espaço urbano se entranham na constituição do ser.

Visual References

Sketches: preliminary watercolour studies for the project;

Paintings: a selection of my oil and watercolour paintings – and one ceramic piece – created in recent months/years, serving as thematic and aesthetic references for the project;

Photography: personal photographs taken over the years that serve as thematic and aesthetic inspiration for the project.